Opostos num só
Numa dessas noites em que não há muito o que se fazer, ele resolveu sair um pouco de casa e ir tomar uma cervejinha no boteco da esquina. Lá ele encontra o Zé Luiz, homem com quem ele conversa de vez em quando, sempre nesse boteco, mas que não lhe agrada muito, simplesmente pelo fato de ele não ter muita coisa interessante a lhe acrescentar.
Então ele senta na cadeira e pede a de sempre. Quando ela chega, Zé Luiz se aproxima, senta ao seu lado e puxa conversa:
- Olha só quem eu encontro aqui! Meu amigo, fiquei sabendo que você deixou de fazer isso, e agora você está fazendo aquilo.
- Pois é.
- Mas logo você, que sempre foi contra aquilo!
- É né. Mas eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, como já dizia aquele louco baiano.
- Mas eu não entendo.
- E eu, acha que entendo?
- No mínimo deve entender, não?
- Não. E acho que nunca entenderei. Não sei o que me faz gostar de tanta coisa diferente ao mesmo tempo e acabar fazendo o que antes eu era contra ou deixar de fazer algo que antes eu tanto apreciava. Talvez meu cérebro tenha alguma espécie de defeito e eu acabe relacionando as coisas de uma forma própria, numa ligação que envolve características de cada coisa que, por mais diferentes que pareçam, tenham lá suas semelhanças, escondidas ou não. Aliás, isso é bem provável, para ser sincero. Hehe.
- Mas não faz sentido.
- Dane-se o sentido. Quem impôs o tal sentido, aliás? Fui eu? Não! Então não me importo com esse conceito de certo ou errado, de que faz sentido ou não.
- Mas...
- Pareço duro, não? Que nada. Sofro tanto com isso que você nem imagina. Parece que não tenho personalidade e apenas sigo o que me impõem, como se não tivesse minhas próprias concepções.
- É, parece mesmo. Parece que você não tem nada definido e apenas segue.
- Por um lado é mesmo. Estou sempre aprendendo com coisas novas, sem me desligar das coisas antigas. E é aí que meu cérebro resolve misturar tudo. Desta forma, acabo tendo concepções próprias da vida, da música, de filmes, enfim, de assuntos diversos. Mas olha só, é o contrário então. Enquanto vários seguem uma determinada visão sobre certos assuntos, eu não; eu pego tudo, absorvo o que me agrada e aí faço as tais interligações, façam elas sentido ou não. Nem me importo. O que importa é que, de certa forma, me agrade. Nunca consegui me encaixar em um determinado grupo de pessoas e seguir o que me impunham, por falar nisso. E, como já disse, como sofro. Estou certo de que, definitivamente, jamais encontrarei alguém que eu possa conhecer e dizer que tem exatamente os mesmos gostos que eu.
- Mas é impossível que alguém tenha os mesmos gostos que você, ora.
- É, eu sei. Aliás, eu não falo de companheira nem nada. Falo de qualquer pessoa, seja uma amizade, um vizinho ou o que for. Ninguém terá.
- Hmm.
- É complicado. Acontece que gosto do frio e do calor, do preto e do branco, do alto e do baixo, do carinhoso e do selvagem, do muito e do pouco, do daqui e do de lá, do barulho e do silêncio, do forte e do fraco, do perigoso e do seguro, do novo e do velho, do ousado e do cauteloso, do caro e do barato, do calmo e do agitado. Tudo vai depender da circunstância, do dia, da vontade no momento.
- Ah, mas eu acho que todos temos um pouco disso.
- Concordo.
- Então?
- Então que não sei se todos têm os mesmos opostos como eu, do jeito que eu tenho. Hoje digo que te amo, amanhã posso dizer que te odeio; hoje digo que aquilo é ruim, amanhã posso dizer que é uma das melhores coisas que já provei; hoje repudio aquilo, amanhã posso fazê-lo. Sim, num curto espaço de tempo. E aí fico com aquele sentimento de quem acha que não tem personalidade própria ou que não sabe decidir por si próprio. Fico com aquele arrependimento de antes ter feito tal coisa e agora repudiar, ou vice-versa, e assim aqueles pensamentos ficam na cabeça, batendo lá dentro, e irritando e incomodando, te fazendo querer ser qualquer pessoa, menos você mesmo. Bate uma tristeza imensa, que me faz vontade de beber todas até esquecer tudo.
- Acho que entendo.
- Entende nada! Ninguém o faz!
- Nossa, eu só queria ajudar. Tentar te entender. Acho que você é passível de entendimento, apenas não deixa que os outros te entendam, sendo tão fechado desse jeito. Se se abrisse e conhecesse muito mais pessoas, tenho certeza de que ia se identificar com algumas.
- E você acha que não conheço pessoas? Claro que conheço. E quanto mais eu conheço, menos eu me identifico com elas. Por isso meu caráter meio eremita. Sério, isso é estranho.
- Você é estranho.
- Hahaha. Que saber? Obrigado. E até a próxima. Garçom, a conta por favor.
Então ele senta na cadeira e pede a de sempre. Quando ela chega, Zé Luiz se aproxima, senta ao seu lado e puxa conversa:
- Olha só quem eu encontro aqui! Meu amigo, fiquei sabendo que você deixou de fazer isso, e agora você está fazendo aquilo.
- Pois é.
- Mas logo você, que sempre foi contra aquilo!
- É né. Mas eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, como já dizia aquele louco baiano.
- Mas eu não entendo.
- E eu, acha que entendo?
- No mínimo deve entender, não?
- Não. E acho que nunca entenderei. Não sei o que me faz gostar de tanta coisa diferente ao mesmo tempo e acabar fazendo o que antes eu era contra ou deixar de fazer algo que antes eu tanto apreciava. Talvez meu cérebro tenha alguma espécie de defeito e eu acabe relacionando as coisas de uma forma própria, numa ligação que envolve características de cada coisa que, por mais diferentes que pareçam, tenham lá suas semelhanças, escondidas ou não. Aliás, isso é bem provável, para ser sincero. Hehe.
- Mas não faz sentido.
- Dane-se o sentido. Quem impôs o tal sentido, aliás? Fui eu? Não! Então não me importo com esse conceito de certo ou errado, de que faz sentido ou não.
- Mas...
- Pareço duro, não? Que nada. Sofro tanto com isso que você nem imagina. Parece que não tenho personalidade e apenas sigo o que me impõem, como se não tivesse minhas próprias concepções.
- É, parece mesmo. Parece que você não tem nada definido e apenas segue.
- Por um lado é mesmo. Estou sempre aprendendo com coisas novas, sem me desligar das coisas antigas. E é aí que meu cérebro resolve misturar tudo. Desta forma, acabo tendo concepções próprias da vida, da música, de filmes, enfim, de assuntos diversos. Mas olha só, é o contrário então. Enquanto vários seguem uma determinada visão sobre certos assuntos, eu não; eu pego tudo, absorvo o que me agrada e aí faço as tais interligações, façam elas sentido ou não. Nem me importo. O que importa é que, de certa forma, me agrade. Nunca consegui me encaixar em um determinado grupo de pessoas e seguir o que me impunham, por falar nisso. E, como já disse, como sofro. Estou certo de que, definitivamente, jamais encontrarei alguém que eu possa conhecer e dizer que tem exatamente os mesmos gostos que eu.
- Mas é impossível que alguém tenha os mesmos gostos que você, ora.
- É, eu sei. Aliás, eu não falo de companheira nem nada. Falo de qualquer pessoa, seja uma amizade, um vizinho ou o que for. Ninguém terá.
- Hmm.
- É complicado. Acontece que gosto do frio e do calor, do preto e do branco, do alto e do baixo, do carinhoso e do selvagem, do muito e do pouco, do daqui e do de lá, do barulho e do silêncio, do forte e do fraco, do perigoso e do seguro, do novo e do velho, do ousado e do cauteloso, do caro e do barato, do calmo e do agitado. Tudo vai depender da circunstância, do dia, da vontade no momento.
- Ah, mas eu acho que todos temos um pouco disso.
- Concordo.
- Então?
- Então que não sei se todos têm os mesmos opostos como eu, do jeito que eu tenho. Hoje digo que te amo, amanhã posso dizer que te odeio; hoje digo que aquilo é ruim, amanhã posso dizer que é uma das melhores coisas que já provei; hoje repudio aquilo, amanhã posso fazê-lo. Sim, num curto espaço de tempo. E aí fico com aquele sentimento de quem acha que não tem personalidade própria ou que não sabe decidir por si próprio. Fico com aquele arrependimento de antes ter feito tal coisa e agora repudiar, ou vice-versa, e assim aqueles pensamentos ficam na cabeça, batendo lá dentro, e irritando e incomodando, te fazendo querer ser qualquer pessoa, menos você mesmo. Bate uma tristeza imensa, que me faz vontade de beber todas até esquecer tudo.
- Acho que entendo.
- Entende nada! Ninguém o faz!
- Nossa, eu só queria ajudar. Tentar te entender. Acho que você é passível de entendimento, apenas não deixa que os outros te entendam, sendo tão fechado desse jeito. Se se abrisse e conhecesse muito mais pessoas, tenho certeza de que ia se identificar com algumas.
- E você acha que não conheço pessoas? Claro que conheço. E quanto mais eu conheço, menos eu me identifico com elas. Por isso meu caráter meio eremita. Sério, isso é estranho.
- Você é estranho.
- Hahaha. Que saber? Obrigado. E até a próxima. Garçom, a conta por favor.
Dica de hoje: por mais superclichê que essa dica seja, seja você mesmo.
Vino



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