terça-feira, julho 25, 2006

Opostos num só

Numa dessas noites em que não há muito o que se fazer, ele resolveu sair um pouco de casa e ir tomar uma cervejinha no boteco da esquina. Lá ele encontra o Zé Luiz, homem com quem ele conversa de vez em quando, sempre nesse boteco, mas que não lhe agrada muito, simplesmente pelo fato de ele não ter muita coisa interessante a lhe acrescentar.
Então ele senta na cadeira e pede a de sempre. Quando ela chega, Zé Luiz se aproxima, senta ao seu lado e puxa conversa:
- Olha só quem eu encontro aqui! Meu amigo, fiquei sabendo que você deixou de fazer isso, e agora você está fazendo aquilo.
- Pois é.
- Mas logo você, que sempre foi contra aquilo!
- É né. Mas eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, como já dizia aquele louco baiano.
- Mas eu não entendo.
- E eu, acha que entendo?
- No mínimo deve entender, não?
- Não. E acho que nunca entenderei. Não sei o que me faz gostar de tanta coisa diferente ao mesmo tempo e acabar fazendo o que antes eu era contra ou deixar de fazer algo que antes eu tanto apreciava. Talvez meu cérebro tenha alguma espécie de defeito e eu acabe relacionando as coisas de uma forma própria, numa ligação que envolve características de cada coisa que, por mais diferentes que pareçam, tenham lá suas semelhanças, escondidas ou não. Aliás, isso é bem provável, para ser sincero. Hehe.
- Mas não faz sentido.
- Dane-se o sentido. Quem impôs o tal sentido, aliás? Fui eu? Não! Então não me importo com esse conceito de certo ou errado, de que faz sentido ou não.
- Mas...
- Pareço duro, não? Que nada. Sofro tanto com isso que você nem imagina. Parece que não tenho personalidade e apenas sigo o que me impõem, como se não tivesse minhas próprias concepções.
- É, parece mesmo. Parece que você não tem nada definido e apenas segue.
- Por um lado é mesmo. Estou sempre aprendendo com coisas novas, sem me desligar das coisas antigas. E é aí que meu cérebro resolve misturar tudo. Desta forma, acabo tendo concepções próprias da vida, da música, de filmes, enfim, de assuntos diversos. Mas olha só, é o contrário então. Enquanto vários seguem uma determinada visão sobre certos assuntos, eu não; eu pego tudo, absorvo o que me agrada e aí faço as tais interligações, façam elas sentido ou não. Nem me importo. O que importa é que, de certa forma, me agrade. Nunca consegui me encaixar em um determinado grupo de pessoas e seguir o que me impunham, por falar nisso. E, como já disse, como sofro. Estou certo de que, definitivamente, jamais encontrarei alguém que eu possa conhecer e dizer que tem exatamente os mesmos gostos que eu.
- Mas é impossível que alguém tenha os mesmos gostos que você, ora.
- É, eu sei. Aliás, eu não falo de companheira nem nada. Falo de qualquer pessoa, seja uma amizade, um vizinho ou o que for. Ninguém terá.
- Hmm.
- É complicado. Acontece que gosto do frio e do calor, do preto e do branco, do alto e do baixo, do carinhoso e do selvagem, do muito e do pouco, do daqui e do de lá, do barulho e do silêncio, do forte e do fraco, do perigoso e do seguro, do novo e do velho, do ousado e do cauteloso, do caro e do barato, do calmo e do agitado. Tudo vai depender da circunstância, do dia, da vontade no momento.
- Ah, mas eu acho que todos temos um pouco disso.
- Concordo.
- Então?
- Então que não sei se todos têm os mesmos opostos como eu, do jeito que eu tenho. Hoje digo que te amo, amanhã posso dizer que te odeio; hoje digo que aquilo é ruim, amanhã posso dizer que é uma das melhores coisas que já provei; hoje repudio aquilo, amanhã posso fazê-lo. Sim, num curto espaço de tempo. E aí fico com aquele sentimento de quem acha que não tem personalidade própria ou que não sabe decidir por si próprio. Fico com aquele arrependimento de antes ter feito tal coisa e agora repudiar, ou vice-versa, e assim aqueles pensamentos ficam na cabeça, batendo lá dentro, e irritando e incomodando, te fazendo querer ser qualquer pessoa, menos você mesmo. Bate uma tristeza imensa, que me faz vontade de beber todas até esquecer tudo.
- Acho que entendo.
- Entende nada! Ninguém o faz!
- Nossa, eu só queria ajudar. Tentar te entender. Acho que você é passível de entendimento, apenas não deixa que os outros te entendam, sendo tão fechado desse jeito. Se se abrisse e conhecesse muito mais pessoas, tenho certeza de que ia se identificar com algumas.
- E você acha que não conheço pessoas? Claro que conheço. E quanto mais eu conheço, menos eu me identifico com elas. Por isso meu caráter meio eremita. Sério, isso é estranho.
- Você é estranho.
- Hahaha. Que saber? Obrigado. E até a próxima. Garçom, a conta por favor.
Dica de hoje: por mais superclichê que essa dica seja, seja você mesmo.

Vino

segunda-feira, julho 17, 2006

Sua relação com o resto

Ele fica sozinho no canto
Enquanto o resto está fazendo o que o resto sempre faz
Aí ele percebe, definitivamente, que o resto é resto
E ele, apenas ele

Aí ele conhece uma menina legal depois
E começam a conversar
Ela quer apenas diversão
Ele também, mas um pouco mais seria bem melhor

Ele não é como o resto
Atípico
Ele sentiu algo nela
Ela apenas o viu e analisou
Ele pensa longe
Ela pensa como o resto
Pra ela, o amor é como o resto acha que o amor é
Ele tem seu próprio jeito de amor

Ela desiste
Ele não liga
Não quer pertencer ao resto jamais
Então, como não liga
Se desliga
E volta a seu mundinho

Ele ainda quer achar aquela que também não pertence ao resto
E, se possível, ir até o fim com a atípica
E juntos viveriam, atípicos como eles só
Ao contrário do resto
Que quer ser sempre igual ao todo resto
E assim, continuam sendo resto

Dica de hoje: não tente ser igual aos iguais.

Vino

quarta-feira, julho 12, 2006

Tédio de férias

Tudo parado, nada muda
E se muda, não percebo
Não sei se choro
Não sei se bebo

Ouço música para passar
Leio coisas para distrair
Mas tudo que eu queria
Era não estar aqui

Conto as horas
Como quem espera o trem
O próximo trem, que eu não conheço
E que nem sei se vem

Permaneço então estagnado
Sem fazer um movimento
Escrevendo essas besteiras
Que já nem eu agüento

Vino

Dica de hoje: leia o livro Veneno Antimonotonia, de Eucanaa Ferraz.

sábado, julho 08, 2006

Hoje? Que tal ontem ou amanhã?

Aprendo com o antes o que fazer agora
Faço o agora pensando no depois
Arrependo-me dos erros de antes
Penso nisso agora
Projeto não errar de novo depois

Já tentei me mudar, mas sem sucesso
As mudanças mais concretas são ao acaso
Forçadamente nada permanece
Então fico como fico

O agora é o menor espaço de tempo que vivemos
- como já me explicara uma amiga

É preciso valorizar o passado
E muito, de preferência
(no meu caso, supervalorizo)
Um saudosista nato
Porque o agora nada mais é que todo o antes
Sistematizado
Reunido num só instante
Inconscientemente
E agora mais fácil de se entender
Se é que é possível entender
Você entende a si próprio? Eu não.

Igualmente, um telescópio é indispensável
O meu é de longuíssimo alcance
Como andar se não se enxerga o próximo passo?
Como?
Impossível
Inimaginável
Impraticável
Olho muito para o distante
Imagino
Reflito
O mundo como eu bem entendo
E projeto
Rumos são sempre bem-vindos
Rumos novos, rumos costumeiros
Enfim, escolha o seu
É impossível não ter o seu

No entanto, o inesperado não perde seu valor
Ainda mais quando nos agrada (lógico)
Ótimas surpresas equivalem a uma volúpia jamais sentida
Inigualável a outra do passado
E como é bom

Sinta o passado, viva o hoje, evolua amanhã
Seja apenas você
Único
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Conheça e valorize o passado, para entender o hoje, e, assim, projetar o amanhã. Eis o melhor estilo de vida.
Encerro com Heráclito de Éfeso, que dizia "que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao entrarmos pela segunda vez, não serão as mesmas águas que estarão lá, e a pessoa mesma já será diferente".
Aliás, você acaba de ler esse texto agora. Há segundos atrás (passado) você o estava lendo e, se tirou dele algum aprendizado, aplicará numa ocasião futura.

Dica de hoje: escute Os Mutantes e interprete como preferir.
Vino